História e Arte da Estância Turística de Ribeirão Pires - São Paulo
Entrevista: Daniel Caldeira Imprimir
Daniel Caldeira
Daniel Caldeira

Daniel Caldeira, nascido em 1962 na cidade de Santo André - SP, é um dos músicos que fizeram uma contribuição enorme para Ribeirão Pires. Fundador de uma das primeiras e mais duradouras escolas de música de Ribeirão, o violonista Daniel Caldeira também é um nome muito conhecido no flamenco brasileiro, junto com seu filho Davi Caldeira, que também seguiu o rumo do pai.

Daniel começou desde os 7 anos de idade a brincar com o violão, mas foi com 19 anos que ele começou seus estudos e o aperfeiçoamento do instrumento, desenvolvendo Música Clássica. A maior parte de seu aprendizado foi por conta de aulas particulares com violonistas consagrados da época, como João Rosa e Francisco Araújo - além de ter feito cursos de improvisação na Fundação das Artes.

Em meados de 1987, Daniel passou a ministrar aulas na antiga Transasom, que antes se chamava Minueto. Com o tempo, de professor ele se tornou dono do negócio. Até então, ele tocava apenas violão clássico e fazia ocasionalmente shows em barzinhos, dividindo seu tempo entre a escola. Mas foi quando Daniel descobriu a música flamenca que sua carreira como músico deslanchou, e conforme ele foi sendo chamado para apresentações no cenário musical flamenco, ele foi se destacando e se tornando cada vez mais conhecido nesse meio. Daniel fala um pouco sobre como funcionam shows flamencos, explicando que eles são compostos sempre por dançarinos, acompanhados da música. O violão flamenco (que só é conhecido assim no Brasil, lá fora se chama guitarra flamenca, embora não seja uma guitarra elétrica) é como um violão normal, só que é mais leve, tem um golpeador e a construção é um pouco diferente. "Dá pra tocar tudo nele, de flamenco, mas num violão normal não dá pra tocar flamenco, fica muito ruim... é estranho, horrível. Tem que ser um violão flamenco", explica Daniel.

Mas seu renome no mundo do flamenco nacional não veio de graça. Daniel explica como foi se tornando conhecido: "Conforme você vai estudando o flamenco, começa a conhecer o pessoal do flamenco, aí comentam 'Ah o Daniel toca flamenco', 'Você não quer tocar aqui na minha aula aqui não-sei-aonde?', aí eu bem humildezinho, 'mas eu não sei muito' né, aí dizem 'não, não esquenta...', aí começa. Um professor chega e pergunta 'Daniel você sabe tocar Guarrira (que são uns ritmos flamencos)?', 'não sei'; daí começo a correr atrás pra aprender. E assim foi. Passou-se 10 anos, e eu cresci no meio flamenco. Nessa altura do campeonato eu tava tocando nas melhores escolas, nas aulas, e nisso aparece shows... eu tava com agenda lotada. E em uma dessas escolas, estava pronta pra produzir espetáculos flamencos. Aí que entra um grande espetáculo, com um elenco de 100 pessoas - eu como Diretor Musical. Isso quer dizer, eu vou contratar a galera que vai tocar comigo, uns 8 músicos - como um violino, uma percussão, etc. E eu, que trabalho com a coreógrafa, a gente monta o espetáculo junto e contrata esses outros artistas e assim formamos esse espetáculo chamado "La Corbata" - que é um espetáculo flamenco teatral, musical e dançado, com uma duração de 1 hora e meia. Uma vez que está pronto, esse espetáculo sai rodando. Nós fomos pra Belo Horizonte, SESC de Santos, duas sessões no Teatro São Pedro - tudo lotado. Além disso, ficou por um mês passando na TV Cultura. Ficamos 2 anos com esse espetáculo, numa turnê de 25 apresentações, sempre lotado. Já fiz muita coisa. Uma vez toquei no Salão do Automóvel, no estande da Volkswagen, tocando flamenco, porque a Volkswagen estava com uns carros espanhóis aqui no Brasil, e eles queriam música flamenca pra representar o País. Já fui pra Alagoas, num show lá. Toquei em Belo Horizonte e saiu na Globo de BH. Toquei no Festival de Comida Espanhola no Hotel Milha em SP, ali no Morumbi, saiu na Globo também, no Bom Dia São Paulo - foi um barato, às 7:00 da manhã, quem quer assistir jornal? Dificil né. Tenho coisa pra caramba. Fora trabalhos particulares em hotéis, festas e eventos, etc. E é assim, no Brasil, quem toca Flamenco é só eu, o Davi, o Tito, Corrado, Yuri e uns outros. Mas dá pra contar nos dedos, tem uns sete só."

Daniel também comenta como há uma grande quantidade de músicos e produtores em Ribeirão Pires, a maioria que trabalham fora, nas grandes cidades, e que não são valorizados por aqui. Daniel afirma que "aqui em Ribeirão Pires tem muita gente que trabalha profissionalmente com música, mas ninguém conhece Ribeirão. A prefeitura não valoriza. E Ribeirão Pires não tem tradição cultural. O estado de São Paulo tem uma meia dúzia de cidades que tem tradição cultural: Campos de Jordão, Tatuí, Santos, entre algumas outras... dá pra contar no dedo. Tatuí é a maior cidade musical do Brasil. Lá existe o maior conservatório de música. Lá é uma cidade musical."

Em 1996, ele gravou um CD de música clássica erudita, tocadas inteiramente no violão, de músicas compostas por Bach, Vivaldi, Escarlate, Tarrega, etc. que foi lançado profissionalmente pela Sonopress, mas foram prensados apenas 1.000 CD's, que foram vendidos em shows.

Além de tudo isso, ele também sempre esteve tocando na noite em grupos de MPB, forró e até um pouco de rock, pegando o melhor dos clássicos do rock, mas sempre seguindo com a Escola de Música Transasom. Desde 1987 até agora, Daniel também se aperfeiçoou em outros instrumentos como piano, teclado, viola caipira, guitarra, contra-baixo, cavaquinho e berimbau.

A opinião de Daniel sobre faculdades de música também é bem clara. "Faculdade de música não serve pra nada. Não que seja errado, mas... fala pra mim um cara formado em faculdade de música que tá fazendo alguma coisa? Quantos caras se formam por ano na USP? Pra onde eles vão? Tão parados. Tem uma gama de pessoas que acha que o caminho da música está na faculdade. Uma outra gama que não, que vão pelo talento. Por exemplo, Chitãozinho & Xororó são formados na USP...? Zezé di Camargo é formado na USP? Leandro e Leonardo? Yamandu Costa? Rafael Rabello? Não. Ninguém é formado em faculdade. E geralmente o que acontece é uma coisa engraçada: esses caras que nunca estudaram, que se tornam grandes, vão depois dar aula na faculdade. Eles falam com pose como 'Tô estudando violão na faculdade não-sei-o-que com o professor Henrique Pinto' - que não fez faculdade! É um cara que ficou famoso tocando pra caramba. Não é assim? Se tivesse faculdade de futebol, quem daria aula lá? O Ronaldinho. O Ronaldinho fez faculdade? Então é uma incógnita esse negócio de faculdade. É legal, você aprende bastante lá, você não vai aprender a tocar, você já tem que chegar e saber tocar. Você vai aprender lá outras coisas, como composição, regência, essas coisas. Mas quando o cara sai de lá, ou vai cuidar de coralzinho de igreja, dar aula... até dar aula em faculdade. Agora me fala um cara, que tá na mídia, que é violonista e formado em faculdade? Não tem. É tudo cara que vem do nada."

Daniel também faz uma reflexão sobre a carreira e a vida de músico no Brasil. "O sucesso de um músico, vem não somente dos estudos. Músico que é músico, ele é uma estrela, ele brilha. Ele não fica apagado, as pessoas reparam. Foi o que aconteceu comigo, eu não cresci no flamenco porque fui fazendo propaganda mentirosa com um cartaz meu dizendo 'ó, sou o Daniel, toco flamenco', não, as pessoas foram falando de mim pra outras pessoas, não eu falando de mim mesmo." Quando questionado se sair do Brasil é a solução pra poder viver como músico em melhores condições, ele diz: "Não... eu conheço um monte de gente que foi pra Espanha. O cara era bom pra caramba de flamenco aqui, chegou na Espanha era mais uma gota de água no oceano. O pior deles lá, de flamenco, é melhor do que qualquer um aqui no Brasil. Você se sairia bem, na Europa, se fosse tocar Samba, Bossa Nova lá, faz juz ao nome. Você iria tocar blues lá no Japão? Brasileiro tocando blues? Ou ir tocar blues no Texas? É a mesma coisa que se viesse um grupo de samba japonês pra cá. No mínimo ia ser engraçado (risos). Por isso que eu nunca curti rock'n'roll ou blues nesse sentido, nem nunca fui pro Country, porque não é uma coisa nossa. Já o flamenco, é mais próximo a nós do que blues. O povo brasileiro tem muita proximidade com o povo hispânico e português. Os sobrenomes tem essas origens né, Oliveira, Pereira, Parreira, Benedito... nós não temos nada a ver com música inglesa nem com música americana. Aí vem um Severino Benedito da Silva montar um grupo de blues... para com isso, monta um grupo de forró. Country no Brasil também, eu adoro Country, mas na mão deles lá (por americanos). Agora o flamenco não, eu posso representar o flamenco: Daniel Caldeira. É um nome português, com ramificações hispânicas. Pega bem."

Daniel Caldeira continua e planeja continuar mantendo a sua tradicional escola de música Transasom, que fica na Av. Fortuna, no centro de Ribeirão Pires, e continuar tocando sempre que é convidado.

(Entrevista de Maio de 2009.)


Site: www.transasom-musical.com

 
Criado e mantido por iD Studio © 2008-2011 - www.idstudio.art.br