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| Matéria de capa - Parte 2 |
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O que define ser um naturalista? Seria aquele que retrata somente o mundo natural e aqui se entenda os animais, os minerais e as plantas ou podemos abranger os pintores que retrataram a vida dos povos e as etnias nas suas interações com os ‘descobridores de um novo mundo’? Inevitavelmente, ao se retratar os povos e costumes de uma época, acaba-se registrando na forma de desenhos e pinturas grande parte da geografia, da topografia e da flora e da fauna locais, porém isso não é necessariamente um trabalho de naturalista que se preocupa mais com a coleta de espécimes e dali sim produzir desenhos precisos, esquemáticos ou artísticos de suas observações além de também muitas vezes fazer desenhos da topografia de lugares ainda não mapeados como referências cartográficas. Tudo isso é realmente um mundo fascinante de incontáveis obras de arte de valor inestimável tanto pelo seu registro histórico como pela qualidade das pinturas, que são uma categoria de arte distinta, nem sempre reconhecida: do Desenho Naturalista, da Ilustração e da Pintura Naturalista. Para tratar delas de forma mais completa seriam necessárias várias revistas inteiras e talvez nem assim conseguiríamos abordar o tema sem esquecer algo importante, porém a ênfase aqui é de trazer à luz essa forma de arte pouco conhecida e pouco valorizada principalmente no Brasil. Fica a sugestão para os educadores que estejam lendo estas linhas que procurem educar nossas crianças e jovens para que conheçam esta vertente artística não só pelo seu valor histórico, mas pelo dinamismo e papel que pode ter nos dias de hoje. Quem sabe não apareceriam mais artistas empenhados em ver e ir além das artes e conhecimentos convencionais, criando algo único e de real inspiração para as gerações atuais e futuras?Rumos Como disse no início, desejo ir um pouco além do convencional neste esboço sobre o tema, pois uma referência completa dos nomes citados poderia ser mais apropriadamente encontrada em ótimos livros que existem mundo afora e nas inúmeras matérias dedicadas ao tema, sendo inútil repisar apenas o que já é bem conhecido, valendo mais a proposição de novas idéias e as possibilidades inerentes à profissão hoje, revelando um potencial que pode e deve ser levado adiante para não ser tão desconhecido especialmente em nosso país que hoje discute a importância da cidadania plena e carece de mais obras originais sobre essa fascinante área da arte. Então, da imagem do naturalista tradicional que pintei acima, começamos a nos aproximar dos dias atuais onde podemos encontrar alguns belíssimos livros ilustrados que mostram o mundo do naturalista profissional ou amador. Como exemplo, posso citar o livro O Naturalista Amador do naturalista e conservacionista indo-britânico Gerald Durrell (1925-1995), um livro editado no Brasil e em Português pela Martins Fontes ainda em 1984, numa ótima iniciativa. O valor desse livro está em justamente apresentar o universo do naturalista amador e profissional ao público de todas as idades de forma carismática como merece o tema, dividido em regiões e fartamente ilustrado com lindos desenhos e ilustrações além da primorosa fotografia que é parte indispensável do naturalismo moderno que busca registrar de todas as formas o objeto do seu amor e interesse. São livros como esse que nunca deveriam faltar nas salas de aula, onde precisaríamos ter também obras nacionais produzidas com qualidade e essa visão maior. Sinto que é preciso um esforço coletivo para retomar a educação, despertar e orientar o interesse natural de crianças e jovens pelo universo que nos cerca de forma dinâmica e aprofundada, transcendendo modismos ecológicos e o conhecimento superficial bem antes de escolherem suas profissões, para que mais pessoas cheguem à vida adulta ainda despertas e vivas no que diz respeito à sua ligação fundamental com a vida e em condições de demonstrar essa visão de várias maneiras. Ainda é tempo e pode ser feito aqui e ali. Comparando esse passado com o panorama atual, pode-se ver que a formação cultural-acadêmica do naturalista de antigamente era mais abrangente, uma formação onde o cientista-naturalista tinha uma cultura mais vasta, multidisciplinar, interessado que era nas ciências naturais sem distinção de áreas, pois se interessava por todas as partes que compõe a busca do entendimento como um Todo. Esse é o tipo de formação que falta hoje: uma formação multidisciplinar que não se prenda aos preconceitos científicos modernos e ouse ir além, onde estão as verdadeiras respostas, além da noção estacionária da Evolução das Espécies de Darwin. Parece uma contradição e é: evolução em si não pode ser estacionária, mas a noção dela acaba sendo se a compreendemos e a aplicamos de forma estática, sem ver que há mais o que ver além da noção de que as espécies lutam pela sobrevivência do mais forte para propagar sua semente como o método impessoal e frio ‘escolhido’ pela natureza: a chamada seleção natural. É preciso estar disposto para ir muito além desbravando o resto e vendo onde nos encaixamos nisto. Ou seja, trata-se de ir além do debate estéril do Creacionismo vs. Darwinismo, se me permitem por desta forma, trata-se de educar corações e mentes para unir a pesquisa científica ética e séria com as noções de evolução e despertamento da consciência para uma investigação proveitosa e fascinante. A Ilustração Naturalista pode e deve, na minha opinião, ajudar nesse processo, materializando imagens que inspirem esta busca, que dêem forma ao imponderável e empolguem o coração com imagens que procurem mostrar mais do que um livro de botânica ou uma mostra comum de belas fotos de natureza poderiam mostrar.Em contrapartida, o naturalista moderno possui uma formação mais especializada, quase sempre significando uma formação como biólogos ou ambientalistas de diversos tipos para ter a fundamentação científica necessária tanto para a análise como para o diagnóstico de providências a serem tomadas para cada estudo ou solução de problemas. Porém essa inegável vantagem do arsenal moderno de sua formação pode ser seu maior problema por muitas vezes ficar restrita ao seu campo de observação e ao que é aceito como ‘útil’ de ser pesquisado, salvo seus próprios estudos pessoais que complementem sua formação como pessoa, mas que infelizmente ainda não são reconhecidos do ponto de vista profissional, pois a sociedade e a comunidade científica atuais tendem a ver mais as credenciais que o profissional possuir de sua formação acadêmica normal, ou seja, se ele se encaixa no modelo atual, do que dependerá seu sucesso na carreira e a obtenção de verbas para suas pesquisas. De modo geral, há pouco interesse em se ir além, mas isto já foi feito pelo mundo afora e noutros tempos com enorme sucesso e deveria servir de exemplo a nós outros. Isto não é uma crítica generalizada, pois se deixa espaço para todos os acertos de profissionais corajosos aqui e ali, no Brasil e no mundo que estão vivenciando algo mais real e ético; é antes de tudo, uma observação como cidadão, dos fatos que vemos ao nosso redor que chamam a nossa atenção, porque há um problema em grande escala. A excessiva especialização, fruto da chamada era da razão e da análise apesar de sua também inegável importância, possui uma outra grande limitação inerente: torna cada vez mais raro o surgimento de pessoas capazes de ver o Todo, além das partes de sua especialização e disso extrair conclusões, mais abrangentes e úteis, porque mais próximas da realidade e dos verdadeiros mecanismos da natureza que não está dividida em compartimentos estanques, como tantos gostariam, mas que ao contrário, exige cada vez mais que saibamos ver a ressonância entre as partes e como tudo é um só organismo interdependente e que influi uns sobre os outros de forma dinâmica e que tais segredos não estão somente ‘lá fora’ ou debaixo das lentes de um poderoso microscópio eletrônico, mas também dentro de cada um de nós. Inúmeros estudos já mostram essa interdependência, tanto que já é até ‘politicamente correto’ afirmar que o que fazemos ou o que deixamos de fazer com a natureza nos afetará o futuro de nossos filhos, assim, não erraríamos por muito se afirmássemos que isso não é misticismo ou especulação sem base e sim a ciência do futuro que deveríamos estar construindo hoje de forma mais ativa. Isto é Evolução. Precisamos de pessoas que possam opinar multidisciplinarmente com autoridade intelectual e moral sobre as questões éticas prementes e não apenas sobre sua área, gerando polêmicas infindas. Sem uma formação mais global fica difícil o diálogo e a troca de opiniões que dependem mais de sabedoria universal sobre as Leis da Vida do que da especialização que não leva em conta esta ressonância e está presa a regras dogmáticas.Mesmo com as diferenças que vimos acima entre o naturalista de antes e o de hoje ainda assim há um fio condutor que une as formas mais tradicionais e as mais modernas da profissão de naturalista e este é justamente seu foco que ainda está estacionado na análise dos espécimes, quantificando e qualificando suas partes supondo extrair desse método os resultados tanto para a chamada conservação dos ecossistemas como para o desenvolvimento de produtos lucrativos para a indústria. Da noção original de evolução Darwiniana para os tempos de hoje é evidente ter prevalecido uma noção de evolução puramente material das espécies, apenas por motivos de propagação da própria espécie e de sobrevivência, daí também o foco dos artistas ter recaído, na maior parte, em retratar de forma a valorizar a anatomia e a forma biológica física como única coisa a ser vista no mundo natural. Esse modelo, sem dúvida importante e necessário na época em que foi apresentado a um mundo que carecia saber estas coisas, pode ser insuficiente hoje e certamente será para o futuro, pois o homem moderno não pode mais basear sua trajetória de vida apenas com uma noção de acaso e necessidade de sobrevivência para explicar o fenômeno vida e nortear seu comportamento. A própria vida parece nos chamar a atenção para mais. Mas, estamos ouvindo? |